“É um carro que simplesmente trabalha”, Sandero 2014 envelheceu sem glamour, mas ainda entrega espaço e simplicidade para quem precisa usar o carro todos os dias

Publicado por em Renault dia
“É um carro que simplesmente trabalha”, Sandero 2014 envelheceu sem glamour, mas ainda entrega espaço e simplicidade para quem precisa usar o carro todos os dias

O Renault Sandero Expression 1.6 8V 2014 pertence claramente ao segundo grupo, porque dificilmente alguém passou a adolescência sonhando com um pôster dele na parede, mas muita gente provavelmente se lembra de um Sandero esperando na porta da escola, carregado para o litoral, parado diante do supermercado numa tarde de sábado ou atravessando uma madrugada de estrada com travesseiro encostado no vidro traseiro.

Poucos sonharam com um Renault Sandero na infância, mas milhares lembram de um nas férias da família, e talvez isso diga mais sobre o carro do que qualquer ficha técnica.
Poucos sonharam com um Renault Sandero na infância, mas milhares lembram de um nas férias da família, e talvez isso diga mais sobre o carro do que qualquer ficha técnica.

E talvez seja justamente por isso que ele tenha envelhecido melhor do que sua falta de glamour sugeria, porque aos 12 anos o que importa já não é a textura do plástico do painel nem a ausência de algum detalhe sofisticado, mas se o carro pega cedo, encara trânsito, sobe serra carregado, recebe três mochilas no porta-malas e volta para casa sem transformar uma viagem comum em aventura mecânica.

2014 era Copa no Brasil, “Happy” tocando em todo lugar e o último suspiro de uma época muito específica

O Sandero Expression 1.6 8V 2014 circulava num Brasil em que a Copa do Mundo dominava conversas, Neymar era assunto diário, Luan Santana seguia enorme, Marcos & Belutti ocupavam as rádios, Pharrell Williams havia feito “Happy” entrar em supermercados, festas e academias, a novela “Império” começava a ocupar as noites e o WhatsApp já estava transformando o grupo da família naquele lugar de onde nunca mais sairíamos.

Era também um momento de mudança para o automóvel brasileiro, porque o crescimento econômico já perdia força, as vendas de veículos recuavam e aquela ideia de trocar de carro rapidamente começava a encontrar prestações mais pesadas e consumidores mais cuidadosos, portanto um hatch simples, grande por dentro e mecanicamente conhecido fazia bastante sentido para uma família que queria comprar espaço antes de comprar status.

O Sandero nunca tentou seduzir ninguém, ele simplesmente aparecia quando havia trabalho a fazer

Abrir a porta de um Sandero dessa geração ainda produz uma sensação curiosamente familiar, a posição é relativamente alta, o para-brisa parece grande, os comandos estão onde você espera e existe uma quantidade considerável de plástico duro ao redor, mas tudo transmite aquela lógica dos objetos feitos antes de alguém decidir que até o comando do ar-condicionado precisava parecer um smartphone.

Ele nasceu para ser o carro que leva as crianças durante a semana e desaparece pela rodovia no feriado, que recebe compras, malas, mochila, cadeira infantil e passageiro extra sem iniciar uma negociação sobre espaço, porque seus 2,59 metros entre os eixos foram muito bem aproveitados e o banco traseiro continua sendo uma das melhores explicações para sua presença persistente nas ruas brasileiras.

É na primeira viagem com a família que o Sandero começa a fazer sentido

Dois adultos vão com bastante dignidade atrás e um terceiro cabe sem que todos precisem imediatamente reconsiderar suas escolhas de vida, há espaço razoável para pernas e principalmente para a cabeça, enquanto o porta-malas de 320 litros não parece extraordinário no papel até o momento em que recebe malas de fim de semana, sacolas de mercado ou o carrinho de criança que costuma determinar quais carros realmente servem para uma família.

ABS e airbags frontais cuidam do básico, enquanto direção assistida, volante regulável e tomada 12 V lembram uma época bem menos digital.
ABS e airbags frontais cuidam do básico, enquanto direção assistida, volante regulável e tomada 12 V lembram uma época bem menos digital.
Por dentro, cinco ocupantes viajam com bom espaço, o banco traseiro não aperta tanto e o porta-malas de 320 litros encara férias curtas bem.
Por dentro, cinco ocupantes viajam com bom espaço, o banco traseiro não aperta tanto e o porta-malas de 320 litros encara férias curtas bem.

Também existe algo agradável na facilidade de entrar e sair dele, especialmente para quem lembra de compactos baixos e apertados daquela época, porque o Sandero não exige que passageiros façam uma pequena coreografia para alcançar o banco traseiro e sua carroceria quadrada pode ter provocado poucas paixões entre designers, mas certamente ajudou muita gente a viajar sem levar os joelhos próximos demais do queixo.

O motor 1.6 não é emocionante, mas quase nunca parece estar pedindo desculpas

Os 106 cv com etanol parecem apenas um número até você colocar quatro pessoas dentro do carro e apontar o capô para uma subida, porque ali aparece a verdadeira vantagem desta versão sobre os antigos compactos 1.0, com resposta suficiente em baixa rotação para acompanhar o trânsito sem precisar tratar cada troca de marcha como decisão estratégica e disposição razoável para continuar acelerando mesmo com bagagem no porta-malas.

Com 106 cv, o 1.6 responde bem no trânsito, encara subidas carregado e mantém fôlego suficiente para viajar com a família sem sofrimento.
Com 106 cv, o 1.6 responde bem no trânsito, encara subidas carregado e mantém fôlego suficiente para viajar com a família sem sofrimento.

Ele vai de 0 a 100 km/h em 11,1 segundos e chega a 179 km/h, portanto ninguém confundirá a experiência com algo esportivo, mas existe uma tranquilidade agradável em entrar numa rodovia sabendo que o pedal direito ainda guarda alguma resposta para uma retomada e que o carro não começará a negociar com a gravidade assim que aparecer a primeira serra.

Na estrada ele lembra férias de uma época anterior às telas gigantes no painel

A quinta marcha entra, o motor se acomoda, a paisagem começa a passar pelas janelas e não existe assistente de faixa, painel digital enorme ou uma central multimídia querendo participar da conversa, apenas volante, instrumentos, ruído de rodagem e aquela sensação antiga de que dirigir ainda era uma atividade e não apenas supervisionar computadores.

Com gasolina o consumo pode chegar a 12,7 km/l na estrada e fica por volta de 9,2 km/l na cidade, enquanto com etanol são cerca de 9,8 km/l rodoviários e 7,1 km/l urbanos, números que não fazem dele um campeão de economia mas permitem ao tanque de 50 litros alcançar teoricamente até 635 km com gasolina em condições rodoviárias, suficiente para atravessar uma boa parte de um dia de viagem antes de transformar o posto de combustível em prioridade.

O melhor do Sandero aparece justamente quando o asfalto começa a piorar

Há carros que parecem brilhantes em piso perfeito e começam a reclamar assim que encontram o Brasil real, enquanto o Sandero segue em frente por remendos, valetas, lombadas e ruas castigadas com uma naturalidade que ajuda a explicar por que tantos foram usados como ferramentas cotidianas, com suspensão de curso confortável e pneus de perfil generoso absorvendo parte das pancadas antes que elas cheguem aos ocupantes.

Na cidade faz 7,1 km/l no etanol e 9,2 km/l na gasolina; na estrada chega a 9,8 e 12,7 km/l, com 50 litros e até 635 km de autonomia.
Na cidade faz 7,1 km/l no etanol e 9,2 km/l na gasolina; na estrada chega a 9,8 e 12,7 km/l, com 50 litros e até 635 km de autonomia.

Isso não significa comportamento de SUV nem autorização para atacar buracos deliberadamente, mas numa estrada secundária, numa rua de terra razoável ou naquela cidade em que o asfalto parece ter sido reparado por diferentes civilizações ao longo dos séculos, existe uma robustez de sensação que combina perfeitamente com o restante do carro.

A direção hidráulica ainda conta uma história que os carros modernos esqueceram

Em baixa velocidade ela exige um pouco mais de esforço do que uma assistência elétrica atual e durante uma manobra de garagem ninguém confundirá o Sandero com um automóvel novo, mas em movimento existe peso suficiente no volante para o motorista sentir que algo mecânico realmente liga suas mãos às rodas dianteiras, uma característica que hoje parece quase nostálgica depois de tantos carros modernos transformarem a direção em algo leve e filtrado.

Com câmbio manual de 5 marchas, tração dianteira e direção hidráulica, dirigir ainda envolve braço, troca de marcha e sensação mecânica real.
Com câmbio manual de 5 marchas, tração dianteira e direção hidráulica, dirigir ainda envolve braço, troca de marcha e sensação mecânica real.

O câmbio manual de cinco marchas completa essa experiência analógica com aquela rotina que marcou milhões de motoristas brasileiros, primeira, segunda, terceira, mão novamente sobre o volante, motor subindo de giro numa ultrapassagem e quinta quando a estrada finalmente abre, sem modos de condução, borboletas ou menus para decidir aquilo que antes dependia simplesmente do pé esquerdo e da mão direita.

O problema começa quando doze anos de simplicidade são confundidos com doze anos sem manutenção

Um Sandero bem cuidado passa uma impressão completamente diferente de um exemplar abandonado, por isso ruídos secos na suspensão, direção hidráulica reclamando, embreagem pesada, temperatura irregular, vazamentos e um motor funcionando áspero merecem muito mais atenção do que pintura brilhando em fotografia, porque carros dessa idade contam sua verdadeira história pelo comportamento e pelos recibos que o proprietário guardou.

A correia dentada merece atenção especial porque o conhecido motor K7M depende dela e não existe heroísmo mecânico capaz de compensar manutenção negligenciada, enquanto sistema de arrefecimento, coxins, buchas, pivôs, terminais e suspensão precisam ser examinados levando em consideração que muitos desses carros passaram uma década exatamente fazendo aquilo para que foram criados, rodando bastante e frequentemente em ruas ruins.

Existe algo reconfortante em abrir o capô e encontrar um automóvel que uma oficina comum ainda entende

O Sandero pertence a uma geração em que manutenção não começava obrigatoriamente conectando um notebook ao carro, suas peças de desgaste são amplamente conhecidas no mercado independente e o motor K7M já passou pelas mãos de incontáveis mecânicos brasileiros, portanto um exemplar saudável não costuma causar aquela ansiedade de automóveis usados sofisticados nos quais cada luz acesa no painel parece anunciar uma transferência bancária.

Mas justamente essa fama de resistência também produz carros maltratados, porque sempre existe o proprietário que interpreta “mecânica robusta” como “não precisa trocar nada”, tornando histórico de manutenção mais importante do que quilometragem baixa, rodas brilhantes ou qualquer argumento entusiasmado usado pelo vendedor.

O charme está em perceber que ele não precisava ter charme

Dirigir hoje um Sandero Expression 1.6 2014 é lembrar de quando carros populares ainda eram assumidamente objetos mecânicos, você gira uma chave, escuta o motor acordar, movimenta uma alavanca ligada a um câmbio de verdade, sente a assistência hidráulica trabalhando e observa um painel cujo maior objetivo é informar o que acontece em vez de reproduzir aplicativos.

Os pontos negativos aparecem no ruído, acabamento simples e consumo apenas razoável, além da atenção necessária com correia e suspensão.
Os pontos negativos aparecem no ruído, acabamento simples e consumo apenas razoável, além da atenção necessária com correia e suspensão.

Talvez ninguém pare para fotografá-lo num posto durante uma viagem e provavelmente nenhuma criança pedirá para vê-lo acelerar ao sair de um estacionamento, mas ele carrega uma nostalgia muito mais cotidiana, a do carro da família que aparece ao fundo das fotografias antigas, estacionado torto diante de uma pousada, coberto de poeira depois da estrada e quase sempre associado a algum lugar para onde aquelas pessoas estavam indo juntas.

O veredito é que o Sandero envelheceu melhor como companheiro do que como automóvel

O Renault Sandero Expression 1.6 8V 2014 continua indicado para quem precisa de espaço, roda em ruas ruins, leva passageiros com frequência e prefere uma mecânica conhecida a equipamentos sofisticados, enquanto não combina tanto com quem procura silêncio, acabamento refinado, consumo de compacto moderno ou a sensação de dirigir algo tecnologicamente atual.

E talvez essa seja a melhor maneira de entender este carro, porque ele nunca prometeu transformar uma terça-feira em evento especial, apenas prometeu chegar ao trabalho, buscar alguém na escola, encher o porta-malas na sexta-feira e apontar para a estrada no sábado de manhã, o que parece pouco até percebermos que boa parte das melhores lembranças de um carro começa exatamente assim.

⚡ Destaques de hoje
Alan Corrêa
Alan Correa
Jornalista automotivo (MTB: 0075964/SP) e analista de mercado. Especialista em traduzir a engenharia de lançamentos e monitorar a desvalorização de usados. No Carro.Blog.br, assina testes técnicos e guias de compra com foco em durabilidade e custo-benefício.