Chevrolet Celta 1.0 2012 ou Fiat Uno Mille Way 1.0 Fire 2012: qual melhor para primeiro carro?

Publicado por em Comparativo dia | Atualizado em

Entre Chevrolet Celta 1.0 2012 e Fiat Uno Mille Way 1.0 Fire 2012, eu iria de Celta como primeiro carro, ele tem 78 cv contra 66 cv do Fiat, anda melhor no trânsito e cobra pouco para cumprir o básico, mas basta encontrar um Uno realmente bem cuidado para essa vantagem desaparecer.

É justamente aí que essa comparação fica interessante, porque o Celta parece ganhar no papel e também ao volante, enquanto o Uno responde com mecânica Fire simples, consumo contido, porta-malas maior e suspensão mais preparada para o asfalto castigado brasileiro, então o melhor primeiro carro pode não ser o modelo que vence a ficha técnica, e sim aquele que conseguiu sobreviver melhor aos últimos 14 anos.

Os 78 cv do Celta diante dos 66 cv do Uno

No papel, 78 cv contra 66 cv não deveriam transformar uma conversa sobre carros populares em um duelo memorável, mas basta colocar quatro pessoas dentro, ligar o ar-condicionado e apontar para uma subida para o Celta parecer ter recebido uma pequena dose de coragem extra.

O Celta usa o 1.0 VHCE de até 78 cv e 9,7 kgfm, enquanto o Uno Mille Way traz o 1.0 Fire de até 66 cv e 9,2 kgfm, ambos com câmbio manual de cinco marchas, e não é preciso dirigir muito para perceber quem trabalha com menos esforço, o Chevrolet sai melhor do semáforo, perde menos fôlego com passageiros e pede menos reduções em subida, enquanto o Fiat cumpre tudo isso também, só que no ritmo de quem prefere pensar alguns segundos antes de agir.

A diferença não transforma o Celta em carro rápido, longe disso, mas deixa o Chevrolet mais agradável no uso comum, especialmente para quem ainda está aprendendo a calcular espaço para entrar numa avenida ou fazer uma ultrapassagem, já o Uno compensa parte da falta de potência pesando cerca de 840 kg, aproximadamente 50 kg a menos que o rival, embora física continue sendo física e 12 cv sejam bastante coisa quando o total disponível é tão pequeno.

Asfalto bom, buraco, lombada e estrada de terra

Se o caminho for uma avenida razoavelmente lisa, o Celta parece mais à vontade, tem posição de dirigir mais baixa, respostas mais rápidas e comportamento típico de um hatch pequeno, mas basta aparecer aquela sequência de lombada alta, remendo, valeta e buraco que transforma uma rua brasileira em prova de regularidade para o Uno Mille Way começar a sorrir.

A suspensão elevada e os cerca de 190 mm de distância do solo do Fiat não servem apenas para justificar os plásticos da versão Way, porque ajudam de verdade em garagens inclinadas, ruas de terra e pavimento ruim, então existe uma divisão curiosa entre eles, quanto melhor a estrada, mais o Celta agrada, quanto pior ela fica, mais o Uno parece ter sido feito para aquele lugar.

Por dentro, Celta e Uno contam histórias diferentes

Por dentro, Celta e Uno lembram que luxo não fazia parte da reunião de projeto, mas o Chevrolet parece mais carro, enquanto o Fiat parece uma cozinha de república: simples, apertado e funcional.

O Celta tem cabine mais baixa, painel simples e posição de dirigir mais parecida com a de um hatch comum, enquanto o Uno é mais vertical, estreito e cercado por plásticos duros, mas aproveita melhor o pouco espaço que possui.

Nenhum deles tenta impressionar pelo acabamento, e isso até combina com a proposta, o Chevrolet parece um carro pequeno feito para o asfalto, enquanto o Fiat lembra uma ferramenta sobre rodas, simples, funcional e pronta para ser usada sem cerimônia.

Economia de combustível sem milagre

O Uno transforma cada litro em missão e chega a 13,6 km/l na estrada com gasolina, enquanto o Celta bebe um pouco mais para entregar a disposição que falta ao pequeno Fiat.

O Mille Way Economy fazia 8,4 km/l com etanol e 12,1 km/l com gasolina na cidade, chegando a 9,5 km/l com etanol e 13,6 km/l com gasolina na estrada pelos números oficiais, desempenho coerente com um carro leve, estreito e pouco interessado em desperdiçar energia fazendo algo tão extravagante quanto acelerar depressa.

O Celta também é econômico e pode passar de 12 km/l com gasolina em rodovia, mas aqui o Fiat leva vantagem pela própria filosofia do projeto, ainda que nenhum número de catálogo sobreviva intacto a 14 anos de manutenção ruim, velas cansadas, pneus murchos ou sensores funcionando pela metade.

Espaço para quem descobre que carro sempre carrega alguma coisa

O Uno tem 290 litros de porta-malas contra 260 litros do Celta e aproveita bem a traseira quase vertical, o que parece detalhe até chegar a primeira viagem com duas malas, uma mochila, compras e alguém insistindo que ainda cabe mais uma sacola.

O Chevrolet responde com tanque de 54 litros contra 50 litros do Fiat e uma cabine mais convencional para quem vem de carros mais recentes, mas nenhum dos dois é grande por dentro, são pequenos populares de início da década passada e não existe engenharia capaz de transformar 3,7 metros de carro em sala de estar.

Motor Fire de um lado, VHCE do outro

A oficina é provavelmente o ambiente em que os dois deixam o comprador mais tranquilo, porque não há mistério tecnológico, peças são fáceis de encontrar e mecânicos independentes conhecem essas mecânicas há anos, mas o Fire do Uno tem uma vantagem cultural difícil de ignorar, foi usado em tantos Fiat que existe oficina onde o mecânico praticamente desmonta um desses por memória.

O Celta também está muito longe de ser complicado, porém pede atenção especial ao sistema de arrefecimento e ao histórico do VHCE, e nos dois casos vale mais uma pasta de notas fiscais e trocas registradas do que qualquer discurso do vendedor dizendo que nunca deu nada.

Onde cada um costuma pedir dinheiro

No Celta é preciso observar radiador, mangueiras, reservatório, vazamentos de óleo, caixa de direção, embreagem e sinais de superaquecimento, além de descobrir quando a correia dentada foi trocada, porque economizar nessa resposta pode ser a maneira mais cara de começar a vida com um automóvel.

No Uno Mille Way a suspensão dianteira merece atenção especial, sobretudo buchas, pivôs, terminais e amortecedores, além de embreagem, arrefecimento e pequenos componentes elétricos ou de acabamento, e existe uma razão simples para isso, muitos Way foram comprados justamente para rodar onde outros carros sofriam, portanto aquela suspensão alta pode ter passado 14 anos demonstrando sua utilidade.

O equipamento depende mais da unidade do que do nome

Airbags e ABS não estavam garantidos em todas as configurações desses carros em 2012, assim como direção hidráulica, ar-condicionado, vidros e travas elétricas variavam conforme versão e opcionais, por isso dois anúncios aparentemente iguais podem esconder carros bem diferentes.

Para primeiro carro eu procuraria direção assistida e ar-condicionado antes de me preocupar com acessórios de aparência, porque estacionar todos os dias com volante pesado e atravessar janeiro sem ar ensina rapidamente que algumas coisas chamadas de opcionais eram apenas itens que deveriam ter vindo de fábrica.

Quando os dois custam quase a mesma coisa

Hoje o Celta 1.0 2012 fica aproximadamente na faixa de R$ 27 mil a R$ 30 mil nas versões de quatro portas pesquisadas, enquanto o Uno Mille Way Economy 1.0 2012 gira perto de R$ 29 mil pela Fipe e também ultrapassa R$ 30 mil nos anúncios mais otimistas, portanto não há diferença suficiente para escolher um deles apenas olhando a etiqueta.

Aliás, esse é exatamente o tipo de compra em que pagar R$ 2 mil a menos pode acabar custando R$ 4 mil a mais, porque quatro pneus, embreagem, amortecedores e uma revisão séria possuem uma capacidade extraordinária de destruir a sensação de ter feito um grande negócio.

O que realmente separa uma boa compra de uma dor de cabeça

Quilometragem ajuda, mas história ajuda mais, então um carro com 150 mil km, correia trocada, arrefecimento correto e revisões documentadas pode ser muito mais interessante que outro anunciando 80 mil km com volante liso, pedais gastos e nenhuma explicação convincente sobre onde passou os últimos 14 anos.

Test-drive precisa incluir rua ruim, subida, frenagem e alguns minutos com o motor quente, enquanto a inspeção deve procurar vazamentos, ruídos, fumaça, folgas, pneus irregulares e sinais de reparo estrutural, porque pintura brilhante é agradável, mas não paga uma caixa de direção.

A escolha entre os dois depois que a ficha técnica acaba

Com dois carros igualmente íntegros na minha frente, eu levaria o Celta, os 78 cv tornam o uso diário menos trabalhoso, o comportamento é mais agradável no asfalto e ele exige menos paciência quando a cidade termina e começa a estrada, enquanto o Uno Mille Way responde com consumo melhor, porta-malas maior, mecânica Fire simples e uma habilidade quase insolente para atravessar ruas que deveriam ter sido recapeadas durante outra administração.

Só que usados antigos não chegam ao mercado em condições iguais, e aí aparece a parte capaz de desmontar toda essa comparação, se o Celta estiver cansado e o Uno tiver histórico impecável, compre o Uno sem cerimônia, porque depois de 14 anos o melhor primeiro carro não é necessariamente aquele que saiu melhor da fábrica, é aquele que chegou melhor até você.

Dois carros iguais no anúncio podem ser mundos diferentes por dentro, então direção hidráulica, ar, airbags e ABS precisam ser conferidos antes que a empolgação assine o recibo.
Alan Correa
Jornalista automotivo (MTB: 0075964/SP) e analista de mercado, com foco em durabilidade e custo-benefício.