Eu costumo cruzar com o Honda WR-V de primeira geração em lojas de usados onde quase ninguém entra animado. Ele não chama atenção, não vira pescoço. Mesmo assim, está lá, com preço abaixo de R$ 80 mil, enquanto carros menores, mais novos e piores de conviver já passaram desse valor. Isso, por si só, diz muito sobre ele.
Quando dirijo um WR-V usado hoje, a primeira sensação não é de novidade, é de familiaridade. A posição de dirigir mais alta lembra um SUV, mas o comportamento é de hatch grande. Ele cabe fácil na vaga, não raspa em lombada comum e resolve a rotina sem pedir adaptação. Os 363 litros do porta-malas não empolgam no papel, mas na prática acomodam supermercado e fim de semana sem drama.
“Como especialista em carros usados, eu vejo o WR-V de primeira geração como uma compra racional para quem quer um automático confiável, com espaço interno acima da média e uso urbano sem dor de cabeça. Ele é ideal para famílias pequenas, motoristas mais maduros ou quem vem de hatch compacto e busca posição de dirigir mais alta. O ponto forte está na mecânica conhecida da Honda, no conforto ao rodar e na previsibilidade de manutenção. Em contrapartida, o motor 1.5 não empolga, o acabamento é simples e o consumo não faz milagres. É preciso atenção ao câmbio CVT, histórico de revisões e suspensão, que costuma sofrer em uso urbano intenso. Donos costumam elogiar a durabilidade e o conforto, mas reclamam de desempenho fraco, isolamento acústico apenas correto e custo de revisão acima da média do segmento.”
O motor 1.5 aspirado de 116 cv não surpreende ninguém, e isso é exatamente o que faz ele funcionar. Eu sei como ele vai reagir antes de acelerar. O zero a 100 km/h em 12,3 segundos não empolga, mas também não me deixa inseguro numa ultrapassagem comum. Na estrada, manter 120 km/h é algo natural, sem barulho excessivo ou sensação de esforço, mesmo sabendo que os 168 km/h de máxima são apenas um número distante.
O câmbio CVT reforça esse caráter. Ele não estimula pressa. No trânsito urbano, isso vira conforto imediato. Em viagem, vira silêncio e constância. Quem espera resposta esportiva se frustra rápido. Eu não esperei, e o carro entregou exatamente o que prometia.
O consumo explica por que vejo tanta gente insistindo nele. Com etanol, faz 8,1 km/l na cidade e 8,8 km/l na estrada. Com gasolina, sobe para 11,7 km/l e 12,4 km/l. Não são números modernos, mas são previsíveis. O gasto no posto não assusta, e isso pesa mais do que qualquer discurso bonito, como revelou o Carro.Blog.Br.
Por dentro, o WR-V mostra idade, mas não descuido. Os comandos são simples, a central multimídia de 7 polegadas, quando equipada, funciona sem travar, e o espaço traseiro resolve adultos sem sofrimento. Em viagens longas, percebo que o banco não foi feito para horas infinitas, mas também não castiga cedo.
Em segurança, eu considero o pacote honesto para o que ele custa hoje. Os seis airbags e os controles de tração e estabilidade colocam o WR-V acima de muitos usados da mesma faixa de preço que ainda vendem aparência no lugar de estrutura.
Segundo o Webmotors, a manutenção segue o padrão que fez esse carro sobreviver no mercado. Não encontrei nada exótico. Suspensão cansada aparece em unidades muito rodadas em cidade ruim. Câmbio CVT mal cuidado cobra caro depois. Nada fora do esperado para um Honda automático dessa idade.
O maior problema do WR-V é que ele não encanta. Não é SUV de verdade, não é novidade e não entrega tecnologia atual. Quem compra esperando sensação de troca radical vai se decepcionar rápido.
Para mim, ele faz sentido para quem quer um carro automático, confiável, com porte razoável e custo previsível, e aceita abrir mão de status. É uma boa saída para quem sai de um hatch antigo e quer altura e silêncio sem entrar em financiamento longo.
Não recomendo para quem busca desempenho, design atual ou retorno rápido na revenda. Contra SUVs usados mais antigos, ele ganha em previsibilidade. Contra compactos novos pelo mesmo dinheiro, perde em tecnologia, mas devolve em espaço e maturidade.
Eu não compraria um WR-V usado por paixão. Compraria por lucidez prática. E isso explica por que, mesmo sem nunca ter sido um sucesso, ele continua sendo escolhido.